Nasci em Quaraí, no inverno de 68, quatro
anos depois do meu irmão.
Fronteira com o Uruguai em anos de ditadura militar,
cresci num lugar cheio de exército, controle
e medo. Fui uma criança solitária.
Passava horas sozinha no pátio, brincando
e sonhando. Adorava a natureza, plantas, bichos,
e principalmente a água.
Era muito tímida, tinha vergonha de mim,
de falar. Para compensar, era a “mais inteligente”,
aluna nota dez, a melhor em tudo o que fazia. Na
escola, aprendia tudo mais rápido que os
outros, estava sempre à frente.
Estudei piano por três anos, adorava. Quando
entrei na quinta série, era muita coisa para
fazer, parei. Mais tarde, me arrependi. Gostava
também de artesanato. Fiz pintura, cerâmica
e tapeçaria.
Era a melhor amiga de todo mundo, a que sempre ajudava.
Todos os amigos me procuravam quando não
estavam bem. Eu gostava disso, me sentia ajudando.
E acreditava que o mundo podia ser um lugar melhor.
Decidi que minha história era trabalhar com
pessoas e, aos 13 anos, resolvi que faria medicina.
A adolescência foi um período de
mudanças, uma época feliz na minha
vida. Tinha bons amigos, vivíamos juntos,
fazíamos muita festa e inventávamos
aventuras. Rebelde, achava um saco as coisas do
mundo “normal”, queria coisas mais interessantes,
emoções fortes. E o impulso de mudar
o mundo era cada vez maior.
Aos quatorze anos me apaixonei por um colega de
aula. Todos diziam que ele também era apaixonado
por mim, mas muito tímido. Quase um ano depois,
ficamos juntos numa festa, e começamos a
namorar.
Em 1986, aos dezessete anos, vim para Porto Alegre
para estudar. Foi a glória. Liberdade, um
mundo maior, vários universos para explorar.
Geminiana curiosa, tudo me interessava. Me apaixonei
por essa cidade, por essa vida e me dediquei a explorá-las.
Passei no vestibular para medicina na UFRGS -
a menina prodígio, como alguns amigos me
chamavam, serviu para algo prático... A faculdade
foi novidade, desafio e sofrimento. Queria ser médica,
mas o curso parecia não ter nada a ver com
o que eu buscava. Fora da realidade, frio e desumano.
Aproximei-me do “povo rebelde” indo
para o movimento estudantil e comecei a compreender
minha crise. Havia uma critica ao modelo da formação
médica e à concepção
de saúde. Agreguei-me a esse movimento e
passei a trabalhar pela proposta de
mudança.
A essa altura, o impulso de mudar o mundo era
o que me movia, na universidade, no mundo intelectual,
na boemia. Passei a me envolver cada vez mais com
militância de esquerda e me tornei petista.
Nesta época também havia muitas festas,
viagens e acampamentos. O retorno à natureza
e a água estiveram sempre presentes.
Em 1990, estava no quinto semestre, fui a um congresso
em Fortaleza. Um amigo “ex” do movimento
estudantil estava na secretaria de saúde
de uma cidade no interior do Ceará, apresentou
uma proposta de levar alunos para fazer estágio
lá. Fomos conhecer Icapuí (uma galera)
e voltamos muito entusiasmados. Resolvemos trancar
a faculdade (eu e mais dois colegas) e ir para lá.
Todo mundo foi contra (colegas, família).
Fiquei uns dias na dúvida, mas tinha a sensação
que não dava para não ir.
Fui. Encontrei o que eu procurava, o que chamei
de medicina de verdade. Viva, com gente viva, com
motivos para fazer as coisas. Problemas reais e
a possibilidade de soluções concretas.
Isso tudo em uma praia, vila de pescadores, éramos
seis sonhadores morando numa casinha na beira do
mar. E me apaixonei por um mineiro. A experiência
de Icapuí definiu minha vida profissional
daí para frente.
Voltamos com bases para propor coisas novas na
nossa formação, o que rendeu estágios
e discussões interessantes nos anos seguintes.
Quando faltavam três meses para me formar,
meu pai morreu repentinamente, foi uma barra. Me
formei em julho de 94.
Surgiu uma proposta para trabalhar numa cidadezinha
do interior do RS, estavam começando a implantar
o SUS e precisavam de profissionais que assumissem
o projeto. Minha primeira reação foi
achar que não era para mim, recém
formada, seria irresponsabilidade. Tanto insistiram
que fui conhecer.
Encontrei um grupo de gente louca e cheia de boa
vontade querendo mudar o mundo. Me apaixonei. De
novo aquela sensação de que não
dava para não ir. Fui para Novo
Barreiro com a proposta de ficar quatro meses, enquanto
procurávamos alguém que pudesse ficar
mais tempo. Fiquei dois anos e meio. Foi uma experiência
muito gratificante, colocar em prática o
que eu acreditava e ver dar resultados concretos.
Amadurecimento, dificuldades, crises. Muito aprendizado.
Sobre mim, sobre as pessoas, sobre a política.
Comecei a me tornar médica e militante de
verdade.
Vivi dois amores durante este tempo, o segundo
foi embora comigo.
Nesse meio tempo fiz especialização
em saúde pública. E decidi repetir
a experiência. Fui para Santo Cristo,
fazer a mesma coisa, só que agora estava
mais escolada. O namorado aquele também foi,
ficamos juntos mais dois anos.
No final de 1999, depois de dois anos e meio,
voltei para Porto Alegre para trabalhar na secretaria
de saúde do estado. Estava estimulada no
início com o novo desafio mas, com o tempo,
comecei a esgotar. Quando percebi, estava trabalhando
doze, até quatorze horas por dia. No terceiro
ano, colapsei. Fiquei doente algumas vezes, mas
não via o que estava acontecendo.
Tive um relacionamento neste período, que
ajudou a segurar a onda. Mas não sobreviveu
à loucura em que eu entrei. Comecei a buscar
terapia, pedir informações. Não
queria práticas convencionais, queria outra
coisa, não sabia bem o quê.
Passava na frente do Namastê diariamente,
um dia entrei para comprar pão e resolvi
perguntar como funcionava. Achei interessante, marquei
uma entrevista e comecei a terapia na mesma
semana. Era janeiro de 2002.
Ao longo daquele ano, entrei na minha crise, me
conhecendo e realizando mudanças fundamentais.
Achei o processo tão profundo, transformador
e rápido, que resolvi fazer treinamento para
terapeuta em 2003 e continuo, atualmente, continuo
neste processo de “afinar os instrumentos”.
Trabalho numa unidade de saúde da família
de Porto Alegre, e depois dessas experiências,
venho “reformatando” a médica
que me tornei e agregando a consciência e
sensibilidade que a bionenergética tem me
dado. Com os alunos da graduação e
os residentes no serviço, retomei, no último
ano e meio, as discussões da formação
médica e da concepção de saúde
do período de estudante.
No Namastê, com terapia individual, grupos,
maratonas, trocando com essa gente linda que se
tornou parte de mim, aprendo ainda mais sobre mim
mesma e as pessoas e busco a integração
de toda a minha experiência, o que tem sido
desafiador e muito gratificante.