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Shanti
LU
Luciana Pauli
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Nasci no exato momento em que sol e lua formavam
uma quadratura no céu de Porto Alegre. O
desafio: conciliar masculino e feminino, mente e
coração, arte e ciência. Na
luta pela sobrevivência (tive uma infância
difícil, tentando encontrar algum espaço
e amor entre cinco irmãos), minha criança
se tornou um misto de rebelde da família
com a aluna de ótimas notas do colégio.
Sempre gostei de aprender coisas novas, era curiosa
e falante. Gostava de ler , cantar e dançar
mais do que de bonecas, até porque já
brincava de casinha na vida real, cuidando da casa
e dos irmãos desde os cinco anos. Lembro
que com 10 anos já me considerava praticamente
uma adulta e, com os problemas aumentando em casa,
já queria trabalhar e ser independente.
Desde cedo quis trabalhar para ter uma vida mais
legal não só materialmente, mas também
culturalmente: queria ter grana para ir mais ao
cinema, a shows, comprar livros e, sendo filha de
um pequeno comerciante com família grande
isso era praticamente impossível. Assim,
comecei a trabalhar aos 14 anos, passando pelas
mais variadas atividades: caixa de supermercado,
de padaria, locadora de vídeo, auxiliar administrativo,
de departamento pessoal... Depois, com o aumento
da minha ambição, fui trabalhar com
vendas para ganhar mais. Vendi títulos de
clube, academia de ginástica, carros e material
de escritório. Não ficava muito tempo
no mesmo trabalho, gostava de novidade, de aprender
e conhecer pessoas diferentes, depois enjoava e
trocava.
Continuava sempre estudando e deixando escondido
o sonho secreto de trabalhar com arte, como se esperasse
um milagre que um dia iria acontecer. Entretanto,
o primeiro milagre que me aconteceu foi o amor.
Me apaixonei intensamente aos 16 anos de idade por
meu primeiro namorado, um colega de aula. Foi um
amor muito bonito. Éramos dois adolescentes
cheios de amor e loucos pra mudar o mundo. Compartilhávamos
a paixão pela arte e pela política,
então, eu sentia que não estava mais
sozinha nas “vontades revolucionárias”
que sentia desde a infância. Descobrimos o
amor, o sexo e a boemia juntos e lutávamos
loucamente (ao menos nos discursos) contra a babaquice
e o reacionarismo. Nós e nossos amigos de
então queríamos realmente fazer a
diferença e esta fase foi fundamental na
minha vida e no que vim a me tornar depois.
Depois, com dezoito anos, fiz meu primeiro curso
de teatro e, simplesmente, amei. Toda a mágica
da criação e do palco que mexiam comigo
desde menina, tomando suas primeiras formas concretas
no mundo. Estava fazendo meu cursinho pré-vestibular
e aí era aquela indecisão. Apesar
do gosto pela arte, mal cogitei a idéia de
fazer qualquer curso nesta área, morria de
vergonha sequer de assumir isso. Hoje entendo que,
no fundo, não me achava capaz ou merecedora.
Tinha também todo o peso da sobrevivência
para mim, eu tinha a crença de que teria
que me virar sempre sozinha e, então, como
também gostava muito de pessoas, movimentos
sociais, políticos e já tinha militado
no movimento secundarista, optei por fazer Ciências
Sociais na UFRGS.
Nos trabalhos em que estive desde então,
sempre busquei me envolver diretamente com pessoas,
fosse através de entrevistas, pesquisas,
reuniões, ou no magistério. Trabalhei
com movimentos populares, organizações
sindicais e AIDS, desde a graduação
até 2004. E, como no início também
as Ciências Sociais não eram suficiente
fonte de renda, me tornei autônoma de publicidade,
atividade que exerço até hoje, paralela
à música e ao trabalho no Namastê.
No primeiro ano de faculdade, tentei uma nova experiência
com teatro. Fui fazer uma oficina com um importante
diretor de teatro gaúcho e, por várias
viagens (minhas e dele) eu acabei a oficina com
a sensação de ser ou um fracasso ou
incompreendida na “minha arte”. Na verdade,
aquela era uma velha sensação de infância
tantas vezes projetada na minha vida adulta. Mas
minha criança também era teimosa,
não desisti. Timidamente, fui buscar alternativas
que me permitissem aprender mais a me expressar
artisticamente.
Como era elogiada cantando em roda de amigos e,
desde criança em apresentações
no colégio, resolvi entrar para um Coral.
Foi uma experiência ótima porque além
de aprender e exercitar o canto, este grupo começou
a fazer montagens grandes com ótimos diretores
de teatro, músicos e coreógrafos.
Espetáculos que envolviam mídia, patrocínio,
onde todos os cantores tinham que fazer um pouco
de tudo. Não havia remuneração,
mas chegamos a ir para Portugal com nossas montagens
e eu aprendi muito sobre todo o processo de produção
de um espetáculo musical.
Me graduei em 1996 e foi bom vencer mais essa etapa
da minha vida, mas sentia que me faltava um algo
mais... Já estava tendo um gostinho disso,
desde a primeira experiência com teatro, então,
paralelo aos trabalhos na minha área de formação,
que me garantiam o sustento, já que eu não
morava com meus pais desde os 19 anos, continuei
cantando, estudando teoria musical, fazendo tentativas
com instrumentos musicais que esbarravam na minha
falta de paciência e até voltei ao
teatro tendo uma experiência bem sucedida
pessoal e profissionalmente. Acabei me focando mais
na música, com idas e vindas que culminaram
na formação da minha banda Anahatta,
com a qual já gravamos um CD e vencemos diversos
festivais. Com a Anahatta eu pude também
assumir publicamente o que até então
era um segredo, meu lado compositora.
Como não poderia deixar de ser, todo esse
processo de aceitação validação
e expressão do meu lado artístico
estava intimamente relacionado ao um período
de grandes descobertas e passos na minha vida pessoal.
Dois acontecimentos no ano 2000 foram fundamentais
para esse crescimento: a chegada da Mariana, minha
filha e o trabalho do Namastê, que iniciei
muito suavemente com 4 meses de gravidez.
Em 2002, entre muitos conflitos e idas e vindas,
abri meu coração para um amor mais
profundo e, claro, isso também transformou
minha vida. Meu crescimento interno floresceu e
começou a dar frutos mais concretos, visíveis
no campo pessoal, profissional e das minhas relações
como um todo, o que me levou a outros níveis
de consciência e amor sequer imaginados antes.
Depois de ter feito a formação em
bioenergética e estar atendendo há
4 anos, sou grata por todas as lições
que a existência me trouxe, por sempre querer
muito da vida. Acredito que essa "fome de vida"
fez com que, hoje, eu tenha muito pra dar; não
só pelas diversas experiências com
pessoas e trabalhos diferentes que tive, mas porque,
apesar de todas as dificuldades e desvios ao longo
do caminho, continuo buscando, em todas as pessoas
e em todos os lugares, uma vida mais bonita, mais
conectada com o meu coração.
A diferença é que antes eu buscava
"uma verdade" e hoje busco meu coração